sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Vida Destroçada

Vivia o meu sonho, um sonho que era só meu, mas depressa se tornou comum. Problemas meus que se tornaram comuns , tal como a minha pobre vida. Era feliz, e infeliz, uma mistura de sentimentos que nem eu entendia... Por ela deveria ser apoiada e não destroçada, levantada e não afogada. Atleta de alta competição, foi no que eu me tornei, cansada, treinos intensos, todos os dias cerca de 4 horas. Acabava estafada... Dores e dores deixavam-me agachada, mas não me podia queixar, de qualquer maneira, quem me iria ouvir? Todos sofrem afinal. Nesse ano deram-me uma folga por dia, diziam que eu precisava de estudar, mas isso pouco me importava... Foi nessa folga que a minha vida mudou a minha perspetiva da pessoa que me trouxe a este mundo... Pelo menos, a primeira vez que me lembro de algo serio, porque muitas coisas destas mas menos graves tinham ja acontecido. Como qualquer adolescente, queria aproveitar essa folga para falar com amigos, divertir-me, visto que era o único tempo que tinha para mim.... Como qualquer adolescente, só queria um pouco de socialização, então decidi que iria para o computar, só uns dez minutos, quem sabe, meia hora... Era só o que eu queria...
Sentia murros, chapadas :"és inútil, és burra, és feia! Não serves para nada! Nunca fazes nada de jeito!", tudo isto, e pensava que talvez fosse verdade, talvez esta reação fosse normal... Queria muito acreditar que era normal... E tentei...
Fingiu que não me conhecia nos dias que se seguiram, e eu fiz o mesmo, por orgulho, e por me sentir magoada, traída... Lembro-me quando ela me bateu, a minha reação foi levar a mao à cara e chorar... No entanto, a dela foi rir-se de mim e gozar... Porque?
Tudo isto continuou um tempo, nomes e nomes e eu em branco, sem perceber o que fizera para ser assim... A tentar corrigir-me, a adormecer com lágrimas nos olhos... A acordar com eles vermelhos e ainda sem explicacoes.
Comecei a sentir-me muito mal, deprimida, chorava muito, até ao ponto de me faltarem as lágrimas. Infligia dor, e sofrimento em mim, e muitas vezes foi demais. Mas achava que merecia, afinal de tudo, eu sou inútil não é? Ainda não percebo o porque, ainda hoje.
Entretanto, as minhas dores aumentavam e eu só queria acabar com tudo de uma vez, não aguentava das costas, do corpo, nem sequer da alma... Tentei por um fim a tudo, mas não resultou, por alguma razão foi... Para isso tomei o comprimido que acreditei levar-me para um sitio melhor.
Ela soube... Achava que se ia aproximar e perguntar como estava, o que tinha, abracar-me e dizer-me que tudo ficaria bem. Mas enganei-me... Aquela que pensava ser a minha melhor amiga tornou-se na minha pior inimiga. "Mas o que pensas que estas a fazer?! És mesmo estúpida, inútil!" não conseguia soltar os pulsos, muito me doíam , e negros ficaram, mas por mais forca que fizesse não conseguia... Ela tem simplesmente muita forca...  Ela controla-me, ela faz o que quer de mim, e não há maneira de eu escapar, alguma vez, mas não é por ser fraca, é por medo do que me poderá acontecer, do que ela me poderá fazer.
Depois de tudo isto, acabou-se o sonho, acabaram-se os treinos...
Com tanto tempo livre, fui para casa mais cedo, só para encontrar o meu pai a agarrar a minha mãe, não por ela estar muito mal, mas para ela não se chegar a mim. Perdi o meu sonho, o que era mais importante para mim, a minha vida... Mas não recebo qualquer apoio.. Nem um "como te sentes?" "como estas?" "precisas de alguma coisa?", não... Nem sequer um "vai ficar tudo bem, fizeste o melhor que tinhas a fazer". Um abraço? Nada senti...
Fui deixada sozinha, fechada no meu quarto, sem sonhos, sem esperanças. Sem nada... Comecei a fumar, sabia que não queria, mas faria de tudo para simplesmente destruir e acabar com a minha vida o mais depressa possível. Ela voltou a descobrir, e mais uma vez, bateu-me, gritou-me, insultou-me e fez o pior que podia ter feito, contou à única pessoa que eu amava neste mundo, a pessoa que mesmo que nunca me protegesse ou ficasse do meu lado quando mais precisasse, ainda tinha um menos sorriso para mim.
Esperava que a maneira dele ser comigo se mantivesse, que ele me apoiasse, mas enganei-me profundamente, oh, como me enganei... Ela conseguiu.. Conseguiu roubar o único sorriso que eu ainda tinha...
A partir daqui, tudo mudou, para pior. Ela espancava-me : "és inútil, és estúpida, burra ! Ninguém gosta de ti! Não tens ninguém e nunca iras ter! És pior que todos os pretos no mundo! Ninguém desta família gosta de ti! Estas sozinha  e ficarás para sempre! És insensível! Burra e oferecida!  ". Isto continuou por um bom tempo. Uns bons anos...
Tinha muitos amigos mas rapidamente me sentia sozinha... Muitos sabem o que é estar sozinho numa multidão. Foi na semana que o meu sonho acabou que o conheci. O rapaz mais perfeito que alguma vez tinha visto, aquele que acabaria por andar a reparar tudo o que ele não tinha estragado.
Fiquei com ele, mas ela não podia saber, por nada no nosso tão sagrado mundo. Caso soubesse, sabia que iria ouvir bocas, e coisas desagradáveis, ela já nem repara no que faz, tornou-se o habito.
Será que sou gorda? Era a pergunta que me rodeava os pensamentos depois de ouvir daquela boca coisas como :"ela tem tanta celulite" "estas tao cheia, não achas que estas a passar da linha?" "estas tao gorda, tao flácida".
Passado uns meses, depois de um TAC, descobri que tinha diversos problemas. Problemas que originaram do meu sonho, ex sonho. Disseram-me que já não poderia fazer coisas que amava, como dançar. Ginástica, tudo o que o meu corpo exigia...
Mais uma vez, nenhum apoio recebi da parte das pessoas que mais me deveriam apoiar... Ela ainda chegou a dizer que fui eu que paguei para médicos dizerem aquelas coisas.. Mas ainda nenhum apoio.
Mas ele, ele apoiou-me...
Não me deixou nunca, nunca me desiludiu, e salvou-me a vida. Quando me quis por na estrada a única mao que me puxou para trás, foi a dele. A dele. Como é que é possível? Eu sou inútil, como é que alguém me ama assim?
Ainda não tinha parado, as lágrimas não desistiam. Todas as noites só elas me ajudavam a adormecer, e muitas vezes a dor ajudava também. E essa eu não queria parar, nem a parei.
Ela continuava... E por muito mais tempo continuou, e ainda hoje dura... E ainda hoje, mesmo passados 4 anos, não me deixa dormir,  não me deixa sorrir quando mais preciso, ainda hoje ela, e essa dor me prendem ao passado e não me deixam avançar. E muitas vezes, na minha cabeça, continuo a achar que mereço que que secalhar é normal.

sábado, 31 de maio de 2014

Alta velocidade

Tao depressa que ela passa, muitas vezes sem nos darmos conta.
A vida claro.
O importante não é que ela passe rápido, o importante é não nos deixarmos estacar. Caso tal aconteça, basta um choque para vermos a vida a passar à frente dos nossos olhos.
Eu tento não esperar, tento andar e correr se for preciso, para não a deixar passar... Mas por vezes todos nós necessitamos de um choque para perceber que temos de ir ainda mais rápido. Por muito que seja difícil correr, eu não desisto. Não desisto porque já aprendi que muitas coisas boas vêem quando nós menos esperamos. Devo lutar, mesmo que muitas vezes não consiga, mas também concordo que não faz mal nenhum parar e reflectir de vez em quando.
Penso que a vida é mais que isto, mais que trabalho, mais que esforço, mas ultimamente não tenho visto, nem sequer sentido que existe mais para além disto.
"Está quase" penso todos os dias, mas será que está? Lá por faltar pouco não quer dizer que se desista.
Nunca, mas nunca desisto, repito-me isto vezes sem conta, e acho que deveria repetir para todos.
Deveria, por acaso deveria, mas quem me iria ouvir? Tantas vezes sinto que o desespero é total, que é raro encontrar coisas ou até mesmo pessoas positivas na vida. Mas sei que elas existem.
Cada vez mais, na conjuntura atual, este mundo se encontra dividido. Eu sei que o que devia estar a acontecer era a união, e não a discriminação, o ódio. Todos nos devemos lembrar de quem é o verdadeiro inimigo. Inimigo esse que nos é comum. Só contra esse devemos lutar, e não nos devemos rebelar uns contra os outros.
Também sinto ódio, e não são poucas as vezes, mas depois consigo lembrar-me que a vida é minha. Mas será que é só minha ? Não sei... Teria de pensar seriamente.

sábado, 3 de maio de 2014

Nova Vida

Já passou. Pensou eu, ou pelo menos tento pensar assim... Será que passou mesmo? Ou estarei simplesmente a ser demasiado optimista?
Tudo o que aconteceu, as lágrimas, tudo o que se partiu, e o sangue... Será que acabou?
Penso que o melhor é deixar para trás, mas será que sou capaz de o fazer? Será que sou capaz de perdoar sem levantar um dedo como vingança? Talvez sim, pelo menos a raiva já passou, acho eu.
Não sei que mais sentir, em relação aos culpados, perdoo-os por uns tempos, porque sei que existem pessoas maldosas. Noutras horas, gravito em torno do que fazer para esquecer, para passar por cima, por muito pouco tempo que seja.
Tudo o que senti, sei que não fui a unica. Sei-lo por tudo o que me disseram, as pessoas que me tentaram animar que por muito que eu o quisesse, não conseguia botar um sorriso, por mais triste que este fosse.
Tudo o que passei, sei que terá recompensa, tudo o que eu sofri, sei que por alguma razão foi ...
Antes, passei tempos muito piores, mas falarei disso outro dia, ou ano... Quando sentir que estou preparada para o partilhar, para o tirar da minha cabeça... Por mais que eu reconhecesse, que tudo o que ouvia a meu respeito era mentira e superficial, eu não conseguia acreditar nisso, agora, tudo me parecia tao real, tão sincero... Sei que não sou a unica a sofrer isto, neste minuto, nem neste segundo. Há mais adolescentes por aí, a experienciar o mesmo, nas mão de outros adolescentes...
Consigo por noites dormir, por mais pouco que seja, consigo fechar os olhos e entrar num mundo que só a mim me pertence, onde mais ninguém tem acesso... Aí, eu sinto-me bem, por meros segundos... até os pesadelos me iludirem e me levarem para a vida real. Isto nos dias em que consigo dormir, nos dias em que não adormeço encharcada, a tremer e com receio de acordar.
É nestas situações que sabemos quem está do nosso lado, quem nos quer bem, quem não nos irá abandonar, esse ano, vi verdadeiramente quem ficará do meu lado, dentro de mim, para sempre...
Por vezes gostava de partilhar tudo ! Sem nunca mais acabar! Mas continuo com medo, com medo que me voltem a fazer o mesmo. A partir desta experiência, percebo que o mundo é mais que revistas, mais que pessoas bonitas e muito mais do que o papel que se faz circular pelas ruas decidido a separar a sociedade, e sei, que algures, existe alguém que precisa de mim, que precisa do meu apoio, que precisa de ajuda para suportar e superar, tal como eu fiz noutros tempos. Tempos que já lá vão, mas que deixaram marcas profundas no meu coração.