Vivia o meu sonho, um sonho que era só meu, mas depressa se tornou comum. Problemas meus que se tornaram comuns , tal como a minha pobre vida. Era feliz, e infeliz, uma mistura de sentimentos que nem eu entendia... Por ela deveria ser apoiada e não destroçada, levantada e não afogada. Atleta de alta competição, foi no que eu me tornei, cansada, treinos intensos, todos os dias cerca de 4 horas. Acabava estafada... Dores e dores deixavam-me agachada, mas não me podia queixar, de qualquer maneira, quem me iria ouvir? Todos sofrem afinal. Nesse ano deram-me uma folga por dia, diziam que eu precisava de estudar, mas isso pouco me importava... Foi nessa folga que a minha vida mudou a minha perspetiva da pessoa que me trouxe a este mundo... Pelo menos, a primeira vez que me lembro de algo serio, porque muitas coisas destas mas menos graves tinham ja acontecido. Como qualquer adolescente, queria aproveitar essa folga para falar com amigos, divertir-me, visto que era o único tempo que tinha para mim.... Como qualquer adolescente, só queria um pouco de socialização, então decidi que iria para o computar, só uns dez minutos, quem sabe, meia hora... Era só o que eu queria...
Sentia murros, chapadas :"és inútil, és burra, és feia! Não serves para nada! Nunca fazes nada de jeito!", tudo isto, e pensava que talvez fosse verdade, talvez esta reação fosse normal... Queria muito acreditar que era normal... E tentei...
Fingiu que não me conhecia nos dias que se seguiram, e eu fiz o mesmo, por orgulho, e por me sentir magoada, traída... Lembro-me quando ela me bateu, a minha reação foi levar a mao à cara e chorar... No entanto, a dela foi rir-se de mim e gozar... Porque?
Tudo isto continuou um tempo, nomes e nomes e eu em branco, sem perceber o que fizera para ser assim... A tentar corrigir-me, a adormecer com lágrimas nos olhos... A acordar com eles vermelhos e ainda sem explicacoes.
Comecei a sentir-me muito mal, deprimida, chorava muito, até ao ponto de me faltarem as lágrimas. Infligia dor, e sofrimento em mim, e muitas vezes foi demais. Mas achava que merecia, afinal de tudo, eu sou inútil não é? Ainda não percebo o porque, ainda hoje.
Entretanto, as minhas dores aumentavam e eu só queria acabar com tudo de uma vez, não aguentava das costas, do corpo, nem sequer da alma... Tentei por um fim a tudo, mas não resultou, por alguma razão foi... Para isso tomei o comprimido que acreditei levar-me para um sitio melhor.
Ela soube... Achava que se ia aproximar e perguntar como estava, o que tinha, abracar-me e dizer-me que tudo ficaria bem. Mas enganei-me... Aquela que pensava ser a minha melhor amiga tornou-se na minha pior inimiga. "Mas o que pensas que estas a fazer?! És mesmo estúpida, inútil!" não conseguia soltar os pulsos, muito me doíam , e negros ficaram, mas por mais forca que fizesse não conseguia... Ela tem simplesmente muita forca... Ela controla-me, ela faz o que quer de mim, e não há maneira de eu escapar, alguma vez, mas não é por ser fraca, é por medo do que me poderá acontecer, do que ela me poderá fazer.
Depois de tudo isto, acabou-se o sonho, acabaram-se os treinos...
Com tanto tempo livre, fui para casa mais cedo, só para encontrar o meu pai a agarrar a minha mãe, não por ela estar muito mal, mas para ela não se chegar a mim. Perdi o meu sonho, o que era mais importante para mim, a minha vida... Mas não recebo qualquer apoio.. Nem um "como te sentes?" "como estas?" "precisas de alguma coisa?", não... Nem sequer um "vai ficar tudo bem, fizeste o melhor que tinhas a fazer". Um abraço? Nada senti...
Fui deixada sozinha, fechada no meu quarto, sem sonhos, sem esperanças. Sem nada... Comecei a fumar, sabia que não queria, mas faria de tudo para simplesmente destruir e acabar com a minha vida o mais depressa possível. Ela voltou a descobrir, e mais uma vez, bateu-me, gritou-me, insultou-me e fez o pior que podia ter feito, contou à única pessoa que eu amava neste mundo, a pessoa que mesmo que nunca me protegesse ou ficasse do meu lado quando mais precisasse, ainda tinha um menos sorriso para mim.
Esperava que a maneira dele ser comigo se mantivesse, que ele me apoiasse, mas enganei-me profundamente, oh, como me enganei... Ela conseguiu.. Conseguiu roubar o único sorriso que eu ainda tinha...
A partir daqui, tudo mudou, para pior. Ela espancava-me : "és inútil, és estúpida, burra ! Ninguém gosta de ti! Não tens ninguém e nunca iras ter! És pior que todos os pretos no mundo! Ninguém desta família gosta de ti! Estas sozinha e ficarás para sempre! És insensível! Burra e oferecida! ". Isto continuou por um bom tempo. Uns bons anos...
Tinha muitos amigos mas rapidamente me sentia sozinha... Muitos sabem o que é estar sozinho numa multidão. Foi na semana que o meu sonho acabou que o conheci. O rapaz mais perfeito que alguma vez tinha visto, aquele que acabaria por andar a reparar tudo o que ele não tinha estragado.
Fiquei com ele, mas ela não podia saber, por nada no nosso tão sagrado mundo. Caso soubesse, sabia que iria ouvir bocas, e coisas desagradáveis, ela já nem repara no que faz, tornou-se o habito.
Será que sou gorda? Era a pergunta que me rodeava os pensamentos depois de ouvir daquela boca coisas como :"ela tem tanta celulite" "estas tao cheia, não achas que estas a passar da linha?" "estas tao gorda, tao flácida".
Passado uns meses, depois de um TAC, descobri que tinha diversos problemas. Problemas que originaram do meu sonho, ex sonho. Disseram-me que já não poderia fazer coisas que amava, como dançar. Ginástica, tudo o que o meu corpo exigia...
Mais uma vez, nenhum apoio recebi da parte das pessoas que mais me deveriam apoiar... Ela ainda chegou a dizer que fui eu que paguei para médicos dizerem aquelas coisas.. Mas ainda nenhum apoio.
Mas ele, ele apoiou-me...
Não me deixou nunca, nunca me desiludiu, e salvou-me a vida. Quando me quis por na estrada a única mao que me puxou para trás, foi a dele. A dele. Como é que é possível? Eu sou inútil, como é que alguém me ama assim?
Ainda não tinha parado, as lágrimas não desistiam. Todas as noites só elas me ajudavam a adormecer, e muitas vezes a dor ajudava também. E essa eu não queria parar, nem a parei.
Ela continuava... E por muito mais tempo continuou, e ainda hoje dura... E ainda hoje, mesmo passados 4 anos, não me deixa dormir, não me deixa sorrir quando mais preciso, ainda hoje ela, e essa dor me prendem ao passado e não me deixam avançar. E muitas vezes, na minha cabeça, continuo a achar que mereço que que secalhar é normal.
Nenhum comentário:
Postar um comentário