sexta-feira, 5 de setembro de 2014
Vida Destroçada
Sentia murros, chapadas :"és inútil, és burra, és feia! Não serves para nada! Nunca fazes nada de jeito!", tudo isto, e pensava que talvez fosse verdade, talvez esta reação fosse normal... Queria muito acreditar que era normal... E tentei...
Fingiu que não me conhecia nos dias que se seguiram, e eu fiz o mesmo, por orgulho, e por me sentir magoada, traída... Lembro-me quando ela me bateu, a minha reação foi levar a mao à cara e chorar... No entanto, a dela foi rir-se de mim e gozar... Porque?
Tudo isto continuou um tempo, nomes e nomes e eu em branco, sem perceber o que fizera para ser assim... A tentar corrigir-me, a adormecer com lágrimas nos olhos... A acordar com eles vermelhos e ainda sem explicacoes.
Comecei a sentir-me muito mal, deprimida, chorava muito, até ao ponto de me faltarem as lágrimas. Infligia dor, e sofrimento em mim, e muitas vezes foi demais. Mas achava que merecia, afinal de tudo, eu sou inútil não é? Ainda não percebo o porque, ainda hoje.
Entretanto, as minhas dores aumentavam e eu só queria acabar com tudo de uma vez, não aguentava das costas, do corpo, nem sequer da alma... Tentei por um fim a tudo, mas não resultou, por alguma razão foi... Para isso tomei o comprimido que acreditei levar-me para um sitio melhor.
Ela soube... Achava que se ia aproximar e perguntar como estava, o que tinha, abracar-me e dizer-me que tudo ficaria bem. Mas enganei-me... Aquela que pensava ser a minha melhor amiga tornou-se na minha pior inimiga. "Mas o que pensas que estas a fazer?! És mesmo estúpida, inútil!" não conseguia soltar os pulsos, muito me doíam , e negros ficaram, mas por mais forca que fizesse não conseguia... Ela tem simplesmente muita forca... Ela controla-me, ela faz o que quer de mim, e não há maneira de eu escapar, alguma vez, mas não é por ser fraca, é por medo do que me poderá acontecer, do que ela me poderá fazer.
Depois de tudo isto, acabou-se o sonho, acabaram-se os treinos...
Com tanto tempo livre, fui para casa mais cedo, só para encontrar o meu pai a agarrar a minha mãe, não por ela estar muito mal, mas para ela não se chegar a mim. Perdi o meu sonho, o que era mais importante para mim, a minha vida... Mas não recebo qualquer apoio.. Nem um "como te sentes?" "como estas?" "precisas de alguma coisa?", não... Nem sequer um "vai ficar tudo bem, fizeste o melhor que tinhas a fazer". Um abraço? Nada senti...
Fui deixada sozinha, fechada no meu quarto, sem sonhos, sem esperanças. Sem nada... Comecei a fumar, sabia que não queria, mas faria de tudo para simplesmente destruir e acabar com a minha vida o mais depressa possível. Ela voltou a descobrir, e mais uma vez, bateu-me, gritou-me, insultou-me e fez o pior que podia ter feito, contou à única pessoa que eu amava neste mundo, a pessoa que mesmo que nunca me protegesse ou ficasse do meu lado quando mais precisasse, ainda tinha um menos sorriso para mim.
Esperava que a maneira dele ser comigo se mantivesse, que ele me apoiasse, mas enganei-me profundamente, oh, como me enganei... Ela conseguiu.. Conseguiu roubar o único sorriso que eu ainda tinha...
A partir daqui, tudo mudou, para pior. Ela espancava-me : "és inútil, és estúpida, burra ! Ninguém gosta de ti! Não tens ninguém e nunca iras ter! És pior que todos os pretos no mundo! Ninguém desta família gosta de ti! Estas sozinha e ficarás para sempre! És insensível! Burra e oferecida! ". Isto continuou por um bom tempo. Uns bons anos...
Tinha muitos amigos mas rapidamente me sentia sozinha... Muitos sabem o que é estar sozinho numa multidão. Foi na semana que o meu sonho acabou que o conheci. O rapaz mais perfeito que alguma vez tinha visto, aquele que acabaria por andar a reparar tudo o que ele não tinha estragado.
Fiquei com ele, mas ela não podia saber, por nada no nosso tão sagrado mundo. Caso soubesse, sabia que iria ouvir bocas, e coisas desagradáveis, ela já nem repara no que faz, tornou-se o habito.
Será que sou gorda? Era a pergunta que me rodeava os pensamentos depois de ouvir daquela boca coisas como :"ela tem tanta celulite" "estas tao cheia, não achas que estas a passar da linha?" "estas tao gorda, tao flácida".
Passado uns meses, depois de um TAC, descobri que tinha diversos problemas. Problemas que originaram do meu sonho, ex sonho. Disseram-me que já não poderia fazer coisas que amava, como dançar. Ginástica, tudo o que o meu corpo exigia...
Mais uma vez, nenhum apoio recebi da parte das pessoas que mais me deveriam apoiar... Ela ainda chegou a dizer que fui eu que paguei para médicos dizerem aquelas coisas.. Mas ainda nenhum apoio.
Mas ele, ele apoiou-me...
Não me deixou nunca, nunca me desiludiu, e salvou-me a vida. Quando me quis por na estrada a única mao que me puxou para trás, foi a dele. A dele. Como é que é possível? Eu sou inútil, como é que alguém me ama assim?
Ainda não tinha parado, as lágrimas não desistiam. Todas as noites só elas me ajudavam a adormecer, e muitas vezes a dor ajudava também. E essa eu não queria parar, nem a parei.
Ela continuava... E por muito mais tempo continuou, e ainda hoje dura... E ainda hoje, mesmo passados 4 anos, não me deixa dormir, não me deixa sorrir quando mais preciso, ainda hoje ela, e essa dor me prendem ao passado e não me deixam avançar. E muitas vezes, na minha cabeça, continuo a achar que mereço que que secalhar é normal.
sábado, 31 de maio de 2014
Alta velocidade
Tao depressa que ela passa, muitas vezes sem nos darmos conta.
A vida claro.
O importante não é que ela passe rápido, o importante é não nos deixarmos estacar. Caso tal aconteça, basta um choque para vermos a vida a passar à frente dos nossos olhos.
Eu tento não esperar, tento andar e correr se for preciso, para não a deixar passar... Mas por vezes todos nós necessitamos de um choque para perceber que temos de ir ainda mais rápido. Por muito que seja difícil correr, eu não desisto. Não desisto porque já aprendi que muitas coisas boas vêem quando nós menos esperamos. Devo lutar, mesmo que muitas vezes não consiga, mas também concordo que não faz mal nenhum parar e reflectir de vez em quando.
Penso que a vida é mais que isto, mais que trabalho, mais que esforço, mas ultimamente não tenho visto, nem sequer sentido que existe mais para além disto.
"Está quase" penso todos os dias, mas será que está? Lá por faltar pouco não quer dizer que se desista.
Nunca, mas nunca desisto, repito-me isto vezes sem conta, e acho que deveria repetir para todos.
Deveria, por acaso deveria, mas quem me iria ouvir? Tantas vezes sinto que o desespero é total, que é raro encontrar coisas ou até mesmo pessoas positivas na vida. Mas sei que elas existem.
Cada vez mais, na conjuntura atual, este mundo se encontra dividido. Eu sei que o que devia estar a acontecer era a união, e não a discriminação, o ódio. Todos nos devemos lembrar de quem é o verdadeiro inimigo. Inimigo esse que nos é comum. Só contra esse devemos lutar, e não nos devemos rebelar uns contra os outros.
Também sinto ódio, e não são poucas as vezes, mas depois consigo lembrar-me que a vida é minha. Mas será que é só minha ? Não sei... Teria de pensar seriamente.